Fonte: http://gafeminista.blogspot.com/2009/04/wendo-entrevista-com-trude-menrath.html
[WenDo] Entrevista com Trude Menrath
Fonte: http://gafeminista.blogspot.com/2009/04/wendo-entrevista-com-trude-menrath.html
O pai do balé cearense vive a densa leveza do espetáculo da vida
O artista nasceu a partir das viagens com a Companhia Marquise Branca, mas há anos era engendrado – teatrinho em casa com os amigos, improvisado com os lençóis da avó, peças no ginásio, vivência intensa da atmosfera cultural do centro de Fortaleza. Despontou mesmo quando resolveu enfrentar os mares bravios da terra natal rumo ao centro cultural da época, a gloriosa e ebulitiva Rio de Janeiro.
Os olhos azuis como o mar que se lhe afigurava na antiga ponte da Praia de Iracema – olhos plenos de sonhos e persistência – devem ter antevisto as adversidades que estavam por vir, mas provavelmente não adivinharam o sucesso; talvez tenham apenas o desejado ardentemente. Diante de tantas dificuldades, a beleza do teatro revista o interpelava com força e se mostrava convincente. “Era o meu destino”. Hugo estava em casa. Se o mundo lá fora era cinza – noites nas praças ou nos bondes, amparado pelo colo da amiga Suzy –, a convivência com aqueles que viriam a ser grandes bailarinos era cor, glamour, “a glória”.
O pai do balé cearense viu, como bom pai que acompanha a cria, as mudanças pelas quais essa arte passou: das primeiras filhas que não aprendiam “direitinho”, ao desabrochar de jóias lapidadas por ele, passando pelas disputas internas objetivando a graça do público. Hugo Bianchi acompanhou também a efervescência da década de 70 – quando os recursos não faltavam –, os espetáculos grandiosos tratando de temas universais e regionais e os momentos seguintes de dificuldades financeiras.
O bailarino é o testemunho vivo de uma história – da dança, do nacionalismo (o Serviço Nacional de Teatro tentava criar uma dança brasileira, com a bailarina Eros Volúsia), da tentativa de afirmação de uma cultura genuinamente cearense (muitos de seus espetáculos trataram de temáticas reconhecidamente atribuídas ao Ceará), do cenário cultural de toda uma época que o criou e foi por ele também criada. A narrativa de Hugo Bianchi percorre desde a época em que o balé clássico era moda entre a elite fortalezense ao presente, em que o balé se reinventa, incrementa-se e convive com a dança contemporânea.
O bailarino dançou com densa leveza o balé repertório da vida, chegando este ano ao 83° ato. Do alto da longa trajetória, desfia os caminhos de sua existência cheia de emoções. As reminiscências, sempre acompanhadas de muitos gestos, denotam uma relação com o corpo bastante expressiva, própria da arte que se transformou em sua vida. Um homem sereno e gentil, mas de uma postura ereta, rígida. Lúcido e sem falsa modéstia, entende-se como vencedor, pioneiro da dança no Ceará.“Sensível, um verdadeiro artista”, como foi definido por tantos. Alguém que aceitou a dor e a delícia de viver da arte e para a arte. Vaidoso, é com gosto indescritível que relembra a beleza do corpo de outrora. Aliás, a idéia do belo é imprescindível em seu conceito de arte: é o sublime, o não-cotidiano, as histórias grandiosas que povoam seu imaginário acerca do balé. A arte é para fazer sentir, “passar emoção”. Os movimentos leves, flutuantes do balé clássico, são a concretização dos sonhos.
A mulher que veio para incomodar e a perspectiva radicalmente histórica de que “o mundo pode dobrar uma esquina”
Livros, gatos em miniatura, rádios antigos de madeira, pratos de porcelana enfeitando as paredes. O apartamento modesto, aconchegante e colorido era um texto a encher os olhos e a antecipar muito de nossa entrevistada, a professora e historiadora Adelaide Gonçalves. Sua presença forte e elegante, cheia de um estilo próprio, impregna aquele lugar e aguça os nossos sentidos; a vida à flor da pele, intensa e visceral, como me parece tudo relativo a esta mulher.
Ela é toda eloqüente: gestos largos, olhar incisivo, cores, pulseiras, cigarros fumados ou simplesmente retidos entre os dedos. Postura pensante, imaginativa, porém respostas rápidas, na ponta da língua. Argúcia. As palavras fluem como um rio que sabe muito bem aonde ir, de forma um tanto cartesiana. Quem é ela? Uma mulher de muitas faces, tal qual José Martí? Creio que sim. Ela é ela e suas circunstâncias, parafraseando o poeta.
A menina nasceu em Tauá, no interior do Ceará, e aos cinco anos aprendeu a ler, com um tio. Estudou em colégio de freira, onde lhe ensinaram a não agredir o Vernáculo – difícil era saber quem era esse senhor! A cidade era a escola e as responsabilidades que advinham dali. Mas o campo... Ah! O campo era a expressão profunda de uma infância feliz: moagem de cana, farinhada, milho, cheiros, fartura, festas de santos, a avó Mimosa.
Cresce a menina. Quase moça, auxiliar da bibliotecária no Ginásio Antônio Araripe, mergulhou em Germinal e sentiu “como se a cabeça estilhaçasse”. Percebeu, com a inteligência e perspicácia que lhe são peculiares, o sentimento do qual Maiakovski também compartilha: “A palavra é um barril de pólvora”. Quando explode, a imaginação voa solta e o mundo nunca mais vai ser o mesmo para quem o vivenciou por esses outros olhos, construídos a milhares de mãos, pois não são somente autor e leitor os envolvidos nesse jogo. Os horizontes se ampliam. O sertão passa a ser o mundo.
Irreverente desde nova? Na medida do possível. Não é fácil imaginar Adelaide Gonçalves fazendo trabalho de catequese nos distritos de Tauá. Mas “há passagens inescapáveis na vida de uma pessoa”. Não destino, como faz questão de frisar. Tanto que passou da mocinha catequista àquela que quer estar ao lado dos pobres da terra. E as lembranças agora são povoadas por “uns padres que não vestem batina, falam em sindicato, são perseguidos pelos poderosos do lugar”.
Adelaide próxima dos 20 anos: Fortaleza, agora não mais só as férias em casa da tia de classe média. A vida, nessa época, era eterna descoberta, desencadear de acontecimentos impactantes. Abalaram-na profundamente os vários Severinos, que morrem “de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia”. As greves do ABC faziam o peito vibrar. O Socialismo parecia cada vez mais próximo. Cuba emocionava e motivava. Por um governo dos trabalhadores, a professora de História ingressa no PT, onde atuou por mais de 20 anos, ao fim dos quais concluiu que “o partido era partido” e a burocratização já havia tomado conta de tudo há bastante tempo.
As palavras – de novo o barril de pólvora! – e a vivência no Pirambu detonam as revoluções interiores, as que pegam na veia, são pra valer. As crianças tinham os cotovelos deformados por bichos-de-pé. Era a miséria urbana. Naquele momento, o que mais coube foi Gorki – “Estou falando de homens que um dia foram homens” – e a vontade dilacerante e pungente de fazer alguma coisa. Estava ganha para o lado esquerdo do mundo. Constrói uma vida em que a questão social é vista como primordial e com um olho sensível, “sin perder la ternura jamás”.
Há também a face da pesquisadora que ousa atender ao chamado de seus objetos de pesquisa, o jornalismo abusado dos trabalhadores, “sem compromisso com o bom vernáculo”, mas apenas com o novo devir – a aurora de um mundo livre e justo. Na cultura proletária, encantam-lhe o teatro social, as greves – “a coreografia das greves” –, os hinos, o barulho de um piquete, os cortejos de 1º de maio. O coração floresce ao pensar nas possibilidades que a História reserva.Com que tremenda lucidez esta mulher reafirma sua crença na necessidade da Revolução e no potencial da América Latina em construir uma nova ordem social! Contra os consensos fabricados em escala mundial, com tanta força introjetados em nós, Adelaide apresenta a perspectiva radicalmente histórica de que “o mundo pode dobrar uma esquina”. Ela concretiza a audácia de sonhar com que a vida seja boa para toda a gente.
As mulheres de Beauvoir
Simone terminou de escrever A mulher desiludida (La femme rompue) em maio de 1967. Todas as histórias têm como personagem principal uma mulher. São mulheres em crise, sentindo-se traídas, solitárias, fracassadas, acuadas e angustiadas, em situações e graus diversos. Não são narrativas de ação, mas textos intimistas, que buscam traçar um perfil psicológico das personagens. Ou seja, não há um ápice e uma resolução do enredo, como, aliás, na maioria dos romances de Beauvoir.
Os críticos franceses, à época, não receberam bem o livro – como também não gostaram d’O segundo sexo, em 1949 - e chegaram a dizer que a Gallimard só continuava a publicar Simone de Beauvoir por pena.
O primeiro romance que ela publicou foi A Convidada (1943), porém o mais conhecido é, provavelmente, Os Mandarins (1954), uma convocação à arte engajada que ganhou o prêmio Goncourt, a mais importante distinção literária da França. Ao todo Simone de Beauvoir escreveu sete romances, uma peça de teatro, um depoimento, cinco livros memorialísticos e dez ensaios. Dentre os ensaios está a sua obra mais conhecida e influente: Le Deuxième Sexe (O Segundo Sexo), de 1949, um estudo apaixonado pela abolição do que ela chamou o mito do "eterno feminino". Esta obra tornou-se um clássico da literatura feminista e marcou o início da preocupação com a condição das mulheres na obra de Beauvoir.
O romance A mulher desiludida surge, então, num contexto de maturidade filosófico, política e artística da autora, no entanto, num período bastante conturbado, pois recentemente a crítica havia atacado duramente dois livros de Beauvoir: Uma morte muito suave (Une mort très douce), de 1964, sobre a morte da mãe dela, e As belas imagens (Les belles images), de 1966, sobre a sociedade de massa e a solidão dos indivíduos.
Um outro contexto bastante interessante do surgimento do livro é a ascensão do movimento feminista à época. Muitos estudiosos consideram que o grande vencedor do Maio de 68 francês foi o movimento de mulheres, por ter posto em discussão o privado, desconstruindo depois a própria oposição público x privado e dizendo ao mundo que as questões ditas “individuais” são também políticas, por isso a condição das mulheres, antes encarada como situação pertencente à esfera do privado, diz respeito sim à esfera do público, do político. E é neste momento que Simone de Beauvoir está começando a participar mais ativamente do movimento feminista, principalmente na luta pelo aborto livre.
O primeiro romance de A mulher desiludida chama-se A idade da discrição (L’âge de discrétion). Uma intelectual de sessenta anos, casada com um cientista de muito sucesso e também sexagenário, nos conta, num relato cheio de angústias e descobertas, como está sendo se tornar idosa. A personagem está incomodada porque o marido, André, não aceita a velhice, enquanto ela encara essa fase da vida com naturalidade. Essa discordância a atormenta, pois ela é uma adepta do mito da “comunicação total” entre um casal – “acreditava-nos transparentes um para o outro, unidos, soldados como irmãos siameses”, diz.
Ora, Simone de Beauvoir era, como já disse, feminista e existencialista, e a sua literatura não nega isto. Para o pensamento existencialista, o outro é sempre um outro, mesmo que se tenha relações de fraternidade – ler a respeito disto o belíssimo romance de Simone intitulado O sangue dos outros, de 1945. Daí a crítica feita em A idade da discrição à crença de que se pode conhecer o outro tão intimamente a ponto de uma quase “fusão”. O principal no romance é a relação da mulher com o marido, embora o título sugira que seja a velhice a temática maior. Ao descobrir que não sabe tudo sobre André, a personagem sente-se aturdida e passa a se perceber velha, num sentido negativo. Paralelo a isto há uma profunda desilusão com o filho e com um livro que acabara de publicar.
Embora a exposição das idéias seja brilhante e inteligentíssima, a narrativa deste romance é, às vezes, demasiado objetiva, o que deixa um ranço de “pensata”: como se a autora tivesse criado suas personagens apenas para que ilustrassem idéias pré-concebidas. No entanto, há momentos em que sentimos o prazer de uma argumentação sólida, de um autoconhecimento invejável... A personagem se mostra lúcida, intensa e segura de si, apesar da crise. Isso é refletido na narrativa, que se torna fluida e visceral.
A história aborda ainda, de forma superficial, a esquerda francesa e a questão de classe. Segundo Simone de Beauvoir, dos três romances publicados em A mulher desiludida, este foi o que ela menos gostou, pois tratou do tema da velhice de forma “superficial”. Mais tarde a autora viria a “acertar as contas” com a problemática, pois publicou em 1970 um longo ensaio chamado A velhice.
O segundo texto, intitulado Monólogo, é violento e desesperado. Deve ser lido de um fôlego só. A personagem chama-se Muriel, mulher que foi bastante reprimida na infância e tem o sonho burguês de assepsia moral e de uma família de “propaganda-de-margarina”. Muriel está sozinha, em seu apartamento, na noite de Ano Novo. Ela está furiosa com todos, que pensa quererem espezinhá-la e rir-se dela. Acha que para superar a humilhação, deve conseguir seu marido de volta para assim reestabelecer a sua família. O que motivou a desagregação da família foi um episódio aterrador: Sylvie, a filha, não suportando a conduta opressora e punitiva da mãe, que se projetava nela, havia suicidado-se há cinco anos. Depois disto, Muriel é afastada do filho, Francis, garoto de 11 anos de idade.
Simone de Beauvoir foi genial ao escolher como recurso literário o monólogo: é ininterrupto, traz a idéia de loucura, de esquizofrenia. Já a supressão da vírgula nos força a freqüentemente recomeçar a leitura da frase, o que nos faz sentir frente a uma pessoa desequilibrada, com quem nos custa estabelecer diálogo e entender o sentido de suas idéias. A angústia expressa nessas páginas é intensa, mas tão tanto quanto a compaixão, sentimento desprezado pelos existencialistas.
A mulher desiludida, romance que dá nome ao livro, é o mais longo e está escrito no formato diário. Quem conta a história aqui é Monique, de quarenta anos, casada há 20 e com duas filhas, ambas adultas e já morando fora de casa. Monique deixou de trabalhar há 10 anos para se dedicar mais ao lar – marido e filhas. Porém nos últimos tempos Maurice, o marido, está diferente. A mulher tenta não pensar no assunto, apoiando seu amor nas lembranças do casamento feliz de outras épocas. Até que descobre a verdade inapelável: ele tem outra. E é a partir dessa descoberta que Simone de Beauvoir vai nos mostrar, com maestria, o que uma mulher pode fazer a ela mesma em nome do papel que ocupa nesta sociedade burguesa.
Monique passa todo o tempo a pensar em variáveis para desmontar o enigma do relacionamento de seu marido com outra mulher ou gasta os dias a maquinar planos mirabolantes para desmoralizar a sua “rival”, constranger o marido ou tê-lo de volta. Ela parece tão pequena, tão fútil! Tão escravizada! É possivelmente mais angustiante do que o Monólogo, pois enquanto lá não vemos saída para Muriel, em A mulher desiludida ainda podemos ter esperanças de uma “volta por cima”, que Simone habilmente não nos deixa acompanhar, apenas insinua. Beauvoir disse que este romance deve ser lido como uma história policial, no sentido de que o leitor deve prestar atenção às pistas deixadas no diário de Monique com o intuito de conhecê-la de verdade, longe da representação que ela cria dela mesma e de sua vida.
Simone de Beauvoir revelou que muitas mulheres a escreveram sobre este romance. Elas se identificavam com Monique, tinham histórias parecidas e, portanto, tomavam o partido da personagem contra o marido e a amante. A autora, em seu livro autobiográfico Balanço Final, declarou que ficou aborrecida com essas interpretações, pois pretendia justamente o contrário: uma crítica à mulher dependente.
A mulher desiludida foi o romance mais atacado do livro. Alguns críticos disseram que o romance era “água-com-açúcar”, o que demonstra estreiteza ou má vontade para com a autora e a temática feminina, pois fica claro, pra quem conhece o mínimo sobre a feminista existencialista que é Beauvoir, que o romance é como uma “sacudida” nas mulheres. Simone relatou, também em Balanço Final, que algumas feministas ficaram indignadas porque ela não criou uma heroína, uma mulher autônoma e bem-resolvida que saísse da crise.
E por que reunir os três romances em um livro? Há uma unidade neles: a temática feminina, óbvio, mas, além disso, a abordagem, a partir do fracasso, da angústia e da solidão, de histórias facilmente encontradas no universo feminino. Pode-se pensar que o fracasso, n’A mulher desiludida, é o fracasso como mãe, intelectual e esposa, e que a angústia e a solidão advêm daí.
Não. Simone de Beauvoir despreza os “fracassos” das personagens. Isso para desconstruí-los: o que é ser uma intelectual e escrever best-sellers? O que é ser mãe e ser uma boa mãe? Qual o papel que a sociedade imputa a uma mulher casada? O que significa ter um casamento feliz? Ela vai às estruturas da nossa sociedade e faz uma crítica atroz ao modelo social burguês e às mulheres que ainda não se tornaram seres humanos íntegros, independentes, livres, autônomos.
Vindo este livro de Simone de Beauvoir, “a escandalosa”, que optou por não casar, morar só, não ter filhos e manter com Sartre, seu companheiro, uma relação baseada na individualidade do outro, não podemos ignorar a discussão acerca da família, do modelo de família nuclear. A crítica à família está no Monólogo, quando Muriel, na tentativa de ser uma “boa” mãe – ou seja, ter sucesso ao incutir na filha a moral e os valores patriarcais – acaba por levar Sylvie ao suicídio. E por que uma mulher tem de ser uma boa mãe? Aliás, por que tem de ser mãe? O papel social atribuído às mulheres é discutido por Simone de Beauvoir n’O segundo sexo, ao cunhar a famosa frase “não se nasce mulher, torna-se”. Ou seja, os papéis são atribuídos às pessoas através de convenções sociais, e não biologicamente, portanto são culturais e não naturais, podendo ser subvertidos. A ideologia se encarrega de nos fazer pensar que os valores são universais e os papéis dos sexos são naturais. Daí a surpresa de muitos ao encontrar uma mulher que não quer ter filhos!
A autora aborda também o apego que as mulheres têm às instituições, principalmente ao casamento e à família, claro. A personagem de A idade da discrição acreditava, no início do romance, que tinha por trás dela um bonito passado, sólido, e por causa disso estava realizada e poderia suportar a velhice. Muriel evoca constantemente, do âmago de sua loucura, a “impecável” mãe que fora. E Monique usa o amor morto como pretexto para continuar a busca pela reconstituição de seu casamento.
As três mulheres chegaram ao fundo do poço e foram obrigadas a encarar suas fraquezas. A primeira, ao que tudo indica, terá ainda momentos de tensão com a velhice, mas saberá conviver com a idade. A segunda parece estar agonizando - a própria Simone, na sua autobiografia, diz que para Muriel só resta a loucura ou o suicídio. E a terceira, fomos obrigados a abandoná-la num momento em que fica indicada um tentativa de resistência.
Vista por esse ângulo – da exposição das fraquezas - Simone de Beauvoir é mais nitidamente feminista e existencialista. É necessário que as mulheres passem por uma situação extrema para que tenham a “revelação” – e isto em Beauvoir lembra a epifania presente em Clarice Lispector – da sua real condição - vejam que o que há é só o “deserto do passado”, como uma das personagens diz, citando Chateaubriand - e assim sejam obrigadas a escolher, “existencialísticamente” falando, com toda a angústia que a necessidade de escolhas pode trazer, o que vão fazer de suas vidas.
Pois ousemos a escolha, com todos os riscos que ela traz! Este livro completou quarenta anos e como é doloroso perceber a extrema atualidade de sua temática! As mulheres, desiludidas, devem buscar uma nova relação com o mundo e com os outros, livres da dependência, do vitimismo, almejando ser indivíduos completos. Neste sentido, Beauvoir deixa a sua contribuição, como catalisadora de um processo.
Lua nova demais, de Elisa Lucinda
Lua nova demais
Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo
sem cama certa,
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.
Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual mestruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de “cadês.”
E a cólica,
a dor de cabeça,
é sempre a mesma merda,
a mesma dor,
de não ter colo,
parque
pracinha,
penteadeira,
pátria.
Ela lua pequenininha
não tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pêlos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois mestrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar
ser mãe e vítima
Ter filho pra doer,
pra bater,
pra abandonar.
Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.
Fosse ela cuidada,
tivesse abrigo onde dormir,
caminho onde ir,
roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado,
pintura, teatro, abraço, casaco de lã
podia borralheira
acordar um dia
cidadã.
Sonha quem cante pra ela:
“Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha...”
Sonha em ser amada,
ter Natal, filhos felizes,
marido, vestido,
pagode sábado no quintal.
Sonha e acorda mal
porque menina na rua,
é muito nova
é lua pequena demais
é ser só cratera, só buracos,
sem pele, desprotegida, destratada
pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas
sem resposta
sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio
mas sempre nua.
(Poema encomenda,1995)
Começo de tudo, de manhã cedo
A implosão da mentira
Affonso Romano de Sant'Anna
Fragmento 1
Mentiram-me.Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem.Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
Fragmento 2
Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre.Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial?mente,
mente partidária?mente,
mente incivil?mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
—diária/mente.
8 de março
Aqui em Fortaleza temos o jornal O Povo, que circula há mais de 80 anos e tem, hoje, uma tiragem que fica entre os 30 e 35 mil exemplares. Pouco, né? Ainda bem...
Pois bem. O grupo O Povo lançou um caderno especial Dia da Mulher, produzido pelo comercial O Povo e patrocinado por empresas que exploram o triste ideal de “beleza feminina”.
O tom era de comemoração. Em nenhum momento tocou-se na história de luta e resistência das mulheres para chegar ate aqui. Falou-se muito em conquistas, em mundo quase livre do machismo, da opressão de gênero etc. O mito da super-mulher (trabalha, cuida da casa, dos filhos, do marido) foi hiper-valorizado e apresentado como algo inerente ao ser feminino. Que bobagem! Está claro que tudo é uma construção histórica e social e ainda há quem venha falar em essência feminina, em feminilidade – embora feminilidade comporte essa idéia de construção cultural, mas muitas vezes é um conceito usado erroneamente, como algo quase natural, essencial mesmo. E ao invés de estarmos aqui louvando a exaustão das mulheres – a mulher “engolidora de sapos” - deveríamos estar era questionando o porquê de elas terem de se desdobrar em três para dar conta de tantas responsabilidades que são “naturalmente” imputadas a elas. Por que os homens não podem cuidar da casa e dos filhos também? E até mais do que isso: a maternidade é o destino de todas as mulheres? É a sua vocação natural? Não sei não...
Outra questão muito explorada pelo jornal O Povo foi a da participação das mulheres na política. Gostaria que a repórter que fez a matéria de capa do caderno de política tivesse conversado com algumas feministas que já desenvolveram pesquisas mostrando como a participação das mulheres do Parlamento tem sido bem parecida com a atuação dos homens. Acho que é hora de pararmos de englobar meio mundo na categoria “mulheres”, quando há outras variáveis influindo seriamente na constituição de identidade das pessoas: classe, raça, etnia, etc. Não que a categoria de gênero não influencie também (embora eu gostaria que não influenciasse e acho que devemos lutar é neste sentido, para sermos gente, antes de qualquer definição de gênero que só causa opressão e heterossexualidade), mas é que há uma superposição dessas variáveis. Não é a “mulher” (conceito ahistórico e essencialista), mas são as mulheres. Faço coro com a feminista e anarquista Emma Goldman, que sustentou fortemente que as mulheres não têm o poder de purificar a política, porque a política não é passível de purificação, não precisa de uma mudança moral simplesmente. “Imputar a ela (mulher) uma mudança que está além de suas possibilidades é divinizá-la”. Grande Emma!