Quem sou eu?


"A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda.Dizem que se esconde por modéstia.Não é.Esconde-se para poder captar o próprio segredo.Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque.Não grita nunca seu perfume.Violeta diz levezas que não se podem dizer."
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"Quanto à suculenta flor de cáctus, é grande e cheirosa e de cor brilhante.É a vingança sumarenta que faz a planta desértica.É o explendor nascendo da esterelidade despótica."
Trecho de Água Viva, de Clarice Lispector


















Na busca voraz de si e do outro, intensidade e doação conduzem o artista a um mergulho no eu profundo

Perfil de Pedro Eymar Barbosa Costa, escrito para a disciplina de Laboratório de Jornalismo Impresso I.

O início – onde a memória alcança – foi a Quixeramobim do Pedro menino que ouvia as histórias da mãe, habilidosa contadora de causos e aventuras. Na brincadeira de criança, a arte-refúgio – doce e inocente inconsciência de ser arte. A geometria da cidade talvez tenha sido a primeira fagulha na cabeça daquele que seria artista mais tarde – era rio, chuva, serra, ponte em que cabe um trem inteiro. Geometria da vida, dos sentidos, de olhar o mundo diferente.

A adolescência foi Fortaleza, a “casinha” na Avenida José Bastos, convivência com os irmãos; primeiro lugar no Municipal, depois a entrada no Liceu do Centro, colégio “lendário”. Lá, era “barra pesada”; o ensino precário e a turma que enfrentava as autoridades, os professores. Transgressora também era a irmã de Pedro. Rompia barreiras, abria caminhos – apresentou-lhe, literariamente, Fernando Pessoa e Eça de Queirós, e falou-lhe, como quem não quer nada, do artista que estava oferecendo um curso de desenho na Casa Amarela: Jean-Pierre Chabloz. A arte não era um projeto, e o encontro com o mestre parece ter sido quase por acaso. Existe destino?

O artista plástico, professor do Curso de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC) e diretor do Museu de Arte da mesma instituição, homem maduro – mas sempre em mutação, em conflito com idéias pré-estabelecidas, inquieto – que nos fala hoje, é fruto de suas vivências permeadas pela dedicação à arte e ao mergulho profundo em si mesmo. A narrativa tecida numa mescla de leveza e ênfase é linda – de ouvir e ver; as mãos, consagradas à arte, desenham no ar gestos longos que teimam em traduzir cada situação vivenciada com a habilidade e sensibilidade de quem sabe lidar com o traço. As mudanças bruscas de tom de voz culminam nos pontos altos da entrevista, aqueles longos silêncios tão eloqüentes, momentos em que senti a força da reflexão acerca de uma extensa trajetória, do olhar de hoje sobre o passado. A memória se apresenta com todo vigor e criticidade; o bom jornalismo deve provocar isso.

O desenho lhe descortinou um universo de sentidos. A cada contemplar do mundo, mil informações bombardeavam cabeça, sentidos, alma. Tudo parecia novo. Talvez lhe fosse difícil imaginar como as pessoas olham o mundo e não o vêem. Primeiro foi o fascínio do desenho como imitação, depois paixão pelo momento do desenho, que traz autoconhecimento. Que poder tem o traço! A “brincadeira” com o carvão achado no quintal, o pastel se diluindo, “a vivência das tensões numa tela, antes de ela ficar pronta”. Inundação da alma. Se o que o agrada é justamente o processo da pintura, da tela em branco à obra pronta, o que sinto é um misto de angústia, ansiedade e frenesi ao pensar nas mil possibilidades em aberto, na atualização da vida, no eterno re-começo do tempo cíclico, na chance de, mais uma vez, dizer de outras formas.

O outro é sempre um abismo – se nós já somos... Para mim, também o momento de preencher a tela morta do meu computador com as cores de Pedro Eymar – ora vermelhas, vivas, pulsantes e libertas, como num Bandeira que tanto gosto, ora num azul bem escuro, como a noite que parece não ter fim e, paradoxalmente, tanta luz pode trazer – é prazeroso e angustiante. Mergulho no Eu profundo. Não é possível dar conta de uma vida em um texto; nem em uma obra de arte qualquer. Posso, quando muito, oferecer pistas selecionadas pelo meu olhar de menina-mulher, vida inteirinha pela frente.

Do rapaz que botou seus desenhos debaixo do braço e rumou para o Rio, ao professor e diretor do Mauc – “oficina, morada e fonte de imaginação” –, a certeza de que há algo que nos move e, ao ser despertado, ninguém segura. Na tela da vida, o gosto de Pedro é mesmo misturar os matizes, os tons, participar do desenrolar dessa história. Intensidade e doação são palavras constituintes da narrativa de sua passagem nesse mundo.

Dia Internacional do Orgulho LGBTT: 40 anos de cores e irreverência

Post um tanto atrasado...

Noite de 28 de junho de 1969. Bar gay Stonewall Inn, em Nova Iorque. Daquela vez a polícia não conseguiria por em prática seu pensamento homofóbico. Uma mulher lésbica resistiu à detenção e logo foi apoiada pelos presentes, que, cansados da opressão, atiraram garrafas, pedras e moedas contra os agentes. Pouco depois, cerca de duzentas pessoas somaram-se à resistência, que prosseguiu com três noites de manifestações. Nascia a militância coletiva pela livre vivência de orientação sexual. Exatamente um ano depois foi organizada a primeira marcha reivindicativa e celebrativa, assinalando o aniversário dos “motins do Stonewall” e estabelecendo o Dia Internacional do Orgulho Lésbico, Gay, Bissexual, Travesti e Transexual. Já o dia 17 de maio foi instituído como o Dia Mundial de Luta contra a Homofobia, pois nessa data, em 1995, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou da categoria de doenças o homossexualismo, considerando o termo certo “homossexualidade”.

Após 40 anos do início dessa história, o movimento de LGBTT se reinventou e se fortaleceu, espalhando suas cores por todo o mundo: Roma, Tel Aviv, São Francisco, São Paulo, entre outras grandes cidades. Já em Fortaleza, a 1ª Parada pela Diversidade Sexual aconteceu em 1999, contando com 500 participantes. Hoje, é o maior evento realizado por movimento social no Ceará e a terceira maior Parada do País, só perdendo para São Paulo e Rio de Janeiro. No ano passado, o número de participantes chegou a 800.000, segundo a Polícia Militar.

Este ano, a X Parada pela Diversidade Sexual do Ceará rememorou as datas históricas do movimento, com o tema “1969... 79... 89... 99... 2009: A Luta Continua”. O movimento LGBTT também está comemorando os 20 anos do Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB), organização pioneira do movimento homossexual do Ceará, que visa “contribuir para melhorar a qualidade de vida de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, e pessoas vivendo com HIV / Aids”, segundo a educadora do Grab e organizadora da Parada, Dediane Souza.

Homofobia ainda é forte no Ceará
É incontestável a necessidade de um dia de visibilidade para o movimento LGBTT. O Centro de Referência GLBT em Direitos Humanos Janaína Dutra, mantido pelo GRAB, divulga que, entre 1996 e 2008, 58 gays, lésbicas e travestis perderam a vida em decorrência de sua orientação sexual; menos de 1% dos assassinatos vai a julgamento pela Justiça. Nesta edição, a Parada pela Diversidade Sexual reivindicou que o Tribunal de Justiça do Ceará aumentasse a pena imputada ao assassino confesso da estudante e travesti Sthefanny Pazziny, em Fortaleza; também que houvesse mais agilidade no julgamento do acusado de matar o professor e militante Luís Palhano, em Crateús; e que se iniciasse a apuração do assassinato do cabeleleiro e ativista Técio Soares, no Crato.

A luta contra a homofobia é travada em todas as frentes, inclusive no Legislativo. A Parada do Orgulho LGBTT divulgou a campanha Não Homofobia, que pede a aprovação do Projeto de Lei Complementar nº 122 / 126, de 2006, que criminaliza a homofobia – é possível votar pelo site www.naohomofobia.com.br. Se a lei for alterada, toda pessoa que sofrer discriminação em função de sua orientação sexual ou identidade de gênero poderá prestar queixa formal em qualquer delegacia, o que levará à abertura de processo judicial. Isso não é privilégio, é apenas reconhecer que a opressão existe e deve ser combatida em sua raiz: o preconceito contra a orientação sexual.

A política LGBTT
O movimento LGBTT pode ser considerado, assim como os movimentos feministas, de negros, etnias, como herdeiro de uma ruptura operada em 1968, a qual transformou a concepção de política, com a célebre máxima “o privado também é político”, ou seja, as questões que pareciam pertencer ao cotidiano e à esfera das afetividades são também políticas. Segundo o professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFC e coordenador do Núcleo de Pesquisas sobre Sexualidade, Gênero e Subjetividades (Nuss), Cristian Paiva, esses movimentos trazem uma concepção de política que vai além das tradicionais esferas deliberativas, perpassando o cotidiano, a vida das pessoas. “Os LGBTTs trazem uma nova leitura do que seja política porque falam a partir do lugar em que estão situados; falam pelo direito de exprimir afetividades e contra as injustiças”.

Para o professor e pesquisador, as Paradas Gays são estratégias de “visibilização” do movimento e têm sim uma dimensão de irreverência e festa, que é como um “choque perceptivo, cognitivo imposto à coletividade; isso diz que o segmento LGBTT está organizado”. Opinião parecida tem a educadora do Grab e organizadora da Parada pela Diversidade Sexual, Dediane Souza. Na fala da militante, o evento é a chance que a comunidade tem de dialogar com a sociedade civil e o poder público, apontando políticas públicas que devem ser implementadas especificamente para o segmento LGBTT. Para Dediane, “a Parada é o momento de coroação das lutas, já que o movimento passa o ano todo desenvolvendo ações relativas à saúde, educação, juventude”.

Calendários de Paradas no Ceará, em 2009:
01/07- Caminhada do Orgulho Gay e Livre Expressão Sexual, em Iguatu
3/07- Juazeiro do Norte
4/07- Crato
26/07- Pacatuba
30/08- Maracanaú

GRAB
Endereço: Rua Teresa Cristina, 1050. Centro – Fortaleza (entre as ruas Clarindo de Queiroz e Duque de Caxias).
Fonte: 3253.6197
Site: www.grab.org.br
E-mail: grab@uol.com.br

Sites interessantes:
Guia Gay Fortaleza: www.guiagayfortaleza.com.br
Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais - ABLGBTT: www.abglt.org.br
Fórum do movimento social de luta contra a Aids do Ceará: www.forumongaidsce.org
SOS Corpo - Instituto Feminista para Democracia: www.soscorpo.org.br

[WenDo] Entrevista com Trude Menrath

A instrutora de WenDo alemã, Trude Menrath, acredita que esta técnica de auto-defesa é um dos caminhos eficazes que as mulheres podem encontrar para combater a violência que sofrem no dia-a-dia. WenDo, que significa “caminho das mulheres”, surgiu no Canadá nos anos 70, desenvolvido por uma família que treinava artes marciais e que soube que a vizinha tinha sido agredida e morta pelo marido, sem chances de defesa. Eles/elas decidiram criar técnicas e estratégias, fáceis e seguras, para serem aplicadas por mulheres e meninas quando estas fossem vítimas de alguma violência, em casa ou nas ruas. A partir daí, o WenDo começou a ser difundido por diversos países, dentre eles, o Brasil, que hoje conta com cinco grupos nas cidades de Curitiba, Salvador, São Paulo, João Pessoa, e mais recentemente, Brasília.Trude Menrath é uma das mulheres responsáveis por esta difusão. Sempre que possível vem ao Brasil acompanhar o desenvolvimento do WenDo no país e colaborar para que cada vez mais outras mulheres tenham acesso à técnica. Foi assim que ela chegou em João Pessoa e realizou uma oficina de uma semana com as mulheres do grupo de WenDo da cidade. Aproveitando sua passagem pela terrinha, fiz esta pequena entrevista com ela, que nos conta, dentre outras coisas, da realização de encontros anuais na França e no Canadá e da organização dos grupos de WenDo pela Europa.
Por Mabel Dias
1) Como você conheceu o WenDo e em que ano foi?
Conheci o WenDo no ano de 1980. Participei de uma oficina em uma casa onde tem sempre oficina para mulheres, no campo, perto da minha cidade, Köln, na Alemanha. É uma casa para estudos, férias, voltada para mulheres e nesta casa foi a primeira ou segunda vez que tive uma oficina de WenDo. Fui lá para aprender WenDo.
2) Há quanto tempo você ensina o WenDo?
Eu comecei a ensinar cinco anos depois que o conheci e comecei a treinar cinco anos depois da oficina que participei, que durou uma semana, e então com outras mulheres iniciamos com um grupo na minha cidade. Começamos a treinar auto-organizadas, sem treinadora; comecei dois anos depois a treinar jiu-jitsu e outras artes marciais, sempre buscando maneiras para oferecer às mulheres meios para elas se auto-defenderem. Há 28 anos comecei com o WenDo e há 23 anos ensino o WenDo.
3) O que significa o WenDo?
Para mim significa um método feminista, uma resposta e um enfrentamento das mulheres em relação à violência contra as mulheres, não é um conceito só físico, de defesa física, mas é um conceito feminista integral, que usa todas as maneiras como todas as mulheres podem se defender - não é só corpo nem só com golpes.
4) Qual o nome do grupo de vocês, fale sobre o trabalho desenvolvido pelo seu grupo na Alemanha.
O nome do grupo é “Frau Schmitzz”, Frau, em alemão, quer dizer “mulher” ou “senhora”, e Schmitzz, é um nome muito comum na região, e queríamos mostrar já com o nome, que o WenDo é para qualquer mulher, não tem que ser jovem, não tem que ser esportiva, pode ser qualquer mulher, de qualquer idade. Trabalhamos muito com meninas, a partir de 6 anos, fazemos cursos com diferentes tipos de mulheres - eu faço muito curso com mulheres imigrantes, falo alguns idiomas e então posso fazer cursos com mulheres que não falam alemão -, fazemos cursos para mulheres que tem problemas físicos, qualquer mulher que não pode andar. Nosso grupo funciona desde 1988, eu e mais duas outras mulheres com muitas mais fizemos este grupo e até hoje ele existe. Somos três atualmente. Nos encontramos uma vez no mês, antes era uma vez pela semana, e discutimos juntas os temas do WenDo e às vezes treinamos. Discutimos o conceito de WenDo e estamos sempre buscando colocar o WenDo mais próximo das mulheres queprecisam. Sempre nas oficinas de WenDo são dados os passos, o que eu aprendi nos anos 80 é muito diferente do WenDo que eu ensino, tem muito a ver com o desenvolvimento que teve no movimento feminista, porque o WenDo está muito perto do movimento feminista, todas as treinadoras de WenDo na Europa são feministas, a maioria são lésbicas, e assim integramos no WenDo os temas que o movimento feminista discute. Um exemplo é que no final dos anos 80 o assunto de abuso sexual de meninas foi muito discutido dentro do movimento feminista e a partir daí integramos este assunto aos treinos, e no final dos anos 80 começamos a dar aulas a meninas, e sempre vemos o WenDo como uma prevenção contra o abuso sexual das meninas e uma maneira para as mulheres sobreviverem à violência que elas sofreram na vida.
5) Por que o WenDo é apenas para as mulheres? Gostaria que você explicasse isto e falasse da importância das mulheres se organizarem.
Para mim é muito claro porque o WenDo é para mulheres, não sei por que há dúvidas. Na Alemanha, como aqui no Brasil e na maioria dos outros países do mundo, a mulher se encontra em uma situação de opressão e discriminação e por isto os homens podem usar violência contra ela, até matar a esposa se ela quiser se separar; existem vários tipos de violência, discriminação no trabalho, estupro, abuso sexual. Hoje em dia, na Alemanha, que é um país desenvolvido como muitos pensam, a mulher recebe ainda menos dinheiro que os homens, fazendo o mesmo trabalho. Em nosso país, assim como no Brasil, existe muita discriminação, as mulheres sofrem violência e é muito importante que elas se organizem para acabar com isto. Eu vejo que na Alemanha, como aqui, as mulheres conseguiram muitas coisas, mas ainda não é suficiente, este pensamento de que já conseguimos muito e não precisamos mais do movimento feminista não é verdadeiro; sobretudo, na Alemanha, vemos a situação das mulheresimigrantes, e no Brasil se olharmos a situação da mulher negra, da trabalhadora, percebemos que temos que continuar lutando.
6) Conte como se dá a organização do WenDo na Alemanha e na Europa.
Temos uma estrutura boa. Tudo começou em 1979 quando as primeiras professoras de WenDo foram formadas lá na Alemanha, mulheres da França e da Bélgica, e de outros países, e lá as mulheres começaram a se encontrar uma vez no ano na França para aprender mais e trocar informações, para trocar idéias e depois começaram a realizar um encontro no sul da França, que é internacional. Em muitos outros países da Europa, como Suécia, Espanha, Suíça, e na Turquia, que não é na Europa, mas fica próximo, existem grupos de WenDo. O encontro lá na França demora três dias, (ocorre) a cada ano, acontece no final de agosto e é um ponto de organização, de treinar muito também. Na Alemanha, a rede de treinadoras se encontra uma vez ao ano também, e tem encontros entre mulheres de WenDo e artes marciais, tem uma estrutura boa, e procuramos nos manter auto-organizadas. Até hoje o WenDo não é uma Organização Não-Governamental (ONG), uma organização institucionalizada; tem grupos autônomos. Eu quero que oWenDo fique sempre autônomo. Somos respeitadas por muitas instituições e na minha cidade até a polícia, quando as mulheres são violentadas pelos maridos, ou crianças, eles indicam, mandam a mulher, a menina, para nosso grupo, para fazer os treinos conosco. Temos uma boa visibilidade e respeito.
7) Como vocês se organizam e como os grupos se mantêm na Europa?
Quando fazemos cursos recebemos dinheiro das instituições, às vezes das mulheres, às vezes uma mistura das duas coisas; somos bem remuneradas pelas instituições, mas também fazemos cursos onde nós recebemos pouco dinheiro em solidariedade a grupos de outras mulheres. Por exemplo, agora estou em João Pessoa treinando com vocês e não estou cobrando a vocês pela oficina que estou dando; sempre tem este lado: onde podemos cobrar, cobramos; onde não podemos, não cobramos ou cobramos menos. É uma maneira de termos renda para manter o nosso grupo. Quando nos encontramos e fazemos este trabalho de organização e de desenvolvimento, divulgação do WenDo, fazemos com nosso dinheiro, nosso trabalho, não recebemos nada de ninguém.
8) Como são pensados estes encontros que são realizados na França, Canadá e quantos já foram realizados?
Começou em 1979 e a cada ano tem um encontro no sul da França; há 28 anos estes encontros são realizados.É sempre um grupo de alguma cidade participante do encontro, e agora o encontro é muito mais internacional. O grupo pega a responsabilidade pela organização e organiza. Tudo isto é feito voluntariamente e sem ajuda financeira. As mulheres quando chegam ao encontro dão apenas uma contribuição, porque temos que pagar pelo acampamento, alimentação, e também tem mulheres que tem mais dinheiro e mulheres que não podem pagar e nenhuma mulher fica de fora se não puder pagar. As primeiras brasileiras, que são as mulheres do grupo de Salvador, não precisaram pagar, foi um ato de solidariedade.
9) Percebo que o WenDo tem algumas características anarquistas, você concorda?
Sim. Eu penso que se você é radical feminista, você também tem ligações características com o anarquismo, como a busca por autogestão, solidariedade, apoio mútuo, entre outros princípios que fazem parte do anarquismo.
10) Vocês já realizaram oficinas com prostitutas. Conte o que foi mais marcante nesta oficina.
Foi minha colega de grupo quem fez esta oficina, no meu caso posso falar de outras experiências que tive, e o mais marcante é quando chegam as meninas e as mulheres, às vezes são tímidas e quando saem do salão já tem outra expressão do corpo, de auto- estima, acho isto muito legal do trabalho. E também com as vitimas de violência o WenDo trabalha com as experiências de violência que cada uma já teve, que é uma maneira de sobreviver, é uma maneira de se sentir melhor e de manter controle sobre a vida melhor que antes, é um lado muito importante do WenDo e também muito bonito, porque quando uma mulher sofre violência é sempre um trauma, ela perde o controle sobre a vida dela, sobre o corpo dela, e com o WenDo ela pode retomar este controle. Isso muda muito na minha vida e também na vida das mulheres, eu posso ver na expressão das mulheres; isso é muito lindo no WenDo.
11) E com as prostitutas, como foi?
Foi a Gabi quem fez a oficina, junto com outra colega nossa, a Marsha, que hoje não está mais no grupo. Elas trabalhavam juntas, porque quando são grupos grandes e que precisam de mais atenção trabalhamos em duas. A experiência foi muito boa, foi difícil porque estas mulheres eram usuárias de heroína, elas vieram algumas semanas, mas foi muito bom porque elas se sentiram mais fortes depois da oficina e as prostitutas são mulheres bem mais vulneráveis à violência - muitas vezes os homens não querem pagar, batem nelas, fazem coisas que elas não foram contratadas (para fazer). Para elas foi muito legal ter esta experiência e para nós também.
12) Qual o recado que você daria para as mulheres brasileiras, para as mulheres de um modo geral, para que elas saiam deste circulo de violência, que não é nada fácil, mas possível.
Que sempre tem caminho.
13) E o caminho pode ser o WenDo...
E o caminho pode ser o WenDo ou outra coisa, mas penso que sempre tem um caminho, às vezes não é fácil encontrar, mas se estamos de olhos abertos, tem um caminho.

Fonte: http://gafeminista.blogspot.com/2009/04/wendo-entrevista-com-trude-menrath.html

O pai do balé cearense vive a densa leveza do espetáculo da vida

Perfil de Hugo Bianchi, escrito para a disciplina de Laboratório de Impresso I.

O foyer do Theatro José de Alencar foi o local escolhido para a entrevista – requinte, atmosfera nobre, um piano, cadeiras de palhinha, janelas imensas descortinando ora a praça José de Alencar interditada, ora a belíssima fachada interna do teatro, com seus vitrais coloridos. Aquelas paredes estão prenhes de recordações para o bailarino, coreógrafo, professor e ator Hugo Bianchi. Se falassem, diriam-nos dos inúmeros ensaios, da gestação de grandiosos espetáculos do “pai” do balé cearense, cuja primeira academia teve sede justamente ali. Quantos instantes, quanto suor? Quantos aplausos? Quantas quedas? Quantas repetições exaustivas de “pliés, relevés, passé, brisé”?
O artista nasceu a partir das viagens com a Companhia Marquise Branca, mas há anos era engendrado – teatrinho em casa com os amigos, improvisado com os lençóis da avó, peças no ginásio, vivência intensa da atmosfera cultural do centro de Fortaleza. Despontou mesmo quando resolveu enfrentar os mares bravios da terra natal rumo ao centro cultural da época, a gloriosa e ebulitiva Rio de Janeiro.
Os olhos azuis como o mar que se lhe afigurava na antiga ponte da Praia de Iracema – olhos plenos de sonhos e persistência – devem ter antevisto as adversidades que estavam por vir, mas provavelmente não adivinharam o sucesso; talvez tenham apenas o desejado ardentemente. Diante de tantas dificuldades, a beleza do teatro revista o interpelava com força e se mostrava convincente. “Era o meu destino”. Hugo estava em casa. Se o mundo lá fora era cinza – noites nas praças ou nos bondes, amparado pelo colo da amiga Suzy –, a convivência com aqueles que viriam a ser grandes bailarinos era cor, glamour, “a glória”.
O pai do balé cearense viu, como bom pai que acompanha a cria, as mudanças pelas quais essa arte passou: das primeiras filhas que não aprendiam “direitinho”, ao desabrochar de jóias lapidadas por ele, passando pelas disputas internas objetivando a graça do público. Hugo Bianchi acompanhou também a efervescência da década de 70 – quando os recursos não faltavam –, os espetáculos grandiosos tratando de temas universais e regionais e os momentos seguintes de dificuldades financeiras.
O bailarino é o testemunho vivo de uma história – da dança, do nacionalismo (o Serviço Nacional de Teatro tentava criar uma dança brasileira, com a bailarina Eros Volúsia), da tentativa de afirmação de uma cultura genuinamente cearense (muitos de seus espetáculos trataram de temáticas reconhecidamente atribuídas ao Ceará), do cenário cultural de toda uma época que o criou e foi por ele também criada. A narrativa de Hugo Bianchi percorre desde a época em que o balé clássico era moda entre a elite fortalezense ao presente, em que o balé se reinventa, incrementa-se e convive com a dança contemporânea.
O bailarino dançou com densa leveza o balé repertório da vida, chegando este ano ao 83° ato. Do alto da longa trajetória, desfia os caminhos de sua existência cheia de emoções. As reminiscências, sempre acompanhadas de muitos gestos, denotam uma relação com o corpo bastante expressiva, própria da arte que se transformou em sua vida. Um homem sereno e gentil, mas de uma postura ereta, rígida. Lúcido e sem falsa modéstia, entende-se como vencedor, pioneiro da dança no Ceará.“Sensível, um verdadeiro artista”, como foi definido por tantos. Alguém que aceitou a dor e a delícia de viver da arte e para a arte. Vaidoso, é com gosto indescritível que relembra a beleza do corpo de outrora. Aliás, a idéia do belo é imprescindível em seu conceito de arte: é o sublime, o não-cotidiano, as histórias grandiosas que povoam seu imaginário acerca do balé. A arte é para fazer sentir, “passar emoção”. Os movimentos leves, flutuantes do balé clássico, são a concretização dos sonhos.

A mulher que veio para incomodar e a perspectiva radicalmente histórica de que “o mundo pode dobrar uma esquina”

Perfil escrito para a disciplina de Laboratório de Impresso.

Livros, gatos em miniatura, rádios antigos de madeira, pratos de porcelana enfeitando as paredes. O apartamento modesto, aconchegante e colorido era um texto a encher os olhos e a antecipar muito de nossa entrevistada, a professora e historiadora Adelaide Gonçalves. Sua presença forte e elegante, cheia de um estilo próprio, impregna aquele lugar e aguça os nossos sentidos; a vida à flor da pele, intensa e visceral, como me parece tudo relativo a esta mulher.
Ela é toda eloqüente: gestos largos, olhar incisivo, cores, pulseiras, cigarros fumados ou simplesmente retidos entre os dedos. Postura pensante, imaginativa, porém respostas rápidas, na ponta da língua. Argúcia. As palavras fluem como um rio que sabe muito bem aonde ir, de forma um tanto cartesiana. Quem é ela? Uma mulher de muitas faces, tal qual José Martí? Creio que sim. Ela é ela e suas circunstâncias, parafraseando o poeta.
A menina nasceu em Tauá, no interior do Ceará, e aos cinco anos aprendeu a ler, com um tio. Estudou em colégio de freira, onde lhe ensinaram a não agredir o Vernáculo – difícil era saber quem era esse senhor! A cidade era a escola e as responsabilidades que advinham dali. Mas o campo... Ah! O campo era a expressão profunda de uma infância feliz: moagem de cana, farinhada, milho, cheiros, fartura, festas de santos, a avó Mimosa.
Cresce a menina. Quase moça, auxiliar da bibliotecária no Ginásio Antônio Araripe, mergulhou em Germinal e sentiu “como se a cabeça estilhaçasse”. Percebeu, com a inteligência e perspicácia que lhe são peculiares, o sentimento do qual Maiakovski também compartilha: “A palavra é um barril de pólvora”. Quando explode, a imaginação voa solta e o mundo nunca mais vai ser o mesmo para quem o vivenciou por esses outros olhos, construídos a milhares de mãos, pois não são somente autor e leitor os envolvidos nesse jogo. Os horizontes se ampliam. O sertão passa a ser o mundo.
Irreverente desde nova? Na medida do possível. Não é fácil imaginar Adelaide Gonçalves fazendo trabalho de catequese nos distritos de Tauá. Mas “há passagens inescapáveis na vida de uma pessoa”. Não destino, como faz questão de frisar. Tanto que passou da mocinha catequista àquela que quer estar ao lado dos pobres da terra. E as lembranças agora são povoadas por “uns padres que não vestem batina, falam em sindicato, são perseguidos pelos poderosos do lugar”.
Adelaide próxima dos 20 anos: Fortaleza, agora não mais só as férias em casa da tia de classe média. A vida, nessa época, era eterna descoberta, desencadear de acontecimentos impactantes. Abalaram-na profundamente os vários Severinos, que morrem “de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia”. As greves do ABC faziam o peito vibrar. O Socialismo parecia cada vez mais próximo. Cuba emocionava e motivava. Por um governo dos trabalhadores, a professora de História ingressa no PT, onde atuou por mais de 20 anos, ao fim dos quais concluiu que “o partido era partido” e a burocratização já havia tomado conta de tudo há bastante tempo.
As palavras – de novo o barril de pólvora! – e a vivência no Pirambu detonam as revoluções interiores, as que pegam na veia, são pra valer. As crianças tinham os cotovelos deformados por bichos-de-pé. Era a miséria urbana. Naquele momento, o que mais coube foi Gorki – “Estou falando de homens que um dia foram homens” – e a vontade dilacerante e pungente de fazer alguma coisa. Estava ganha para o lado esquerdo do mundo. Constrói uma vida em que a questão social é vista como primordial e com um olho sensível, “sin perder la ternura jamás”.
Há também a face da pesquisadora que ousa atender ao chamado de seus objetos de pesquisa, o jornalismo abusado dos trabalhadores, “sem compromisso com o bom vernáculo”, mas apenas com o novo devir – a aurora de um mundo livre e justo. Na cultura proletária, encantam-lhe o teatro social, as greves – “a coreografia das greves” –, os hinos, o barulho de um piquete, os cortejos de 1º de maio. O coração floresce ao pensar nas possibilidades que a História reserva.Com que tremenda lucidez esta mulher reafirma sua crença na necessidade da Revolução e no potencial da América Latina em construir uma nova ordem social! Contra os consensos fabricados em escala mundial, com tanta força introjetados em nós, Adelaide apresenta a perspectiva radicalmente histórica de que “o mundo pode dobrar uma esquina”. Ela concretiza a audácia de sonhar com que a vida seja boa para toda a gente.

As mulheres de Beauvoir

Simone de Beauvoir, escritora, filósofa e feminista francesa, teria completado 100 anos de vida em 2008. Era adepta da corrente filosófica do existencialismo, o que é bastante perceptível em suas obras e até constitutivo delas. O livro A mulher desiludida, bastante polêmico, está fazendo aniversário de 40 anos. É composto de três romances e foi publicado na França em janeiro de 68 pela editora Gallimard, que, aliás, detém os direitos de publicação da obra de Simone de Beauvoir na França.
Simone terminou de escrever A mulher desiludida (La femme rompue) em maio de 1967. Todas as histórias têm como personagem principal uma mulher. São mulheres em crise, sentindo-se traídas, solitárias, fracassadas, acuadas e angustiadas, em situações e graus diversos. Não são narrativas de ação, mas textos intimistas, que buscam traçar um perfil psicológico das personagens. Ou seja, não há um ápice e uma resolução do enredo, como, aliás, na maioria dos romances de Beauvoir.
Os críticos franceses, à época, não receberam bem o livro – como também não gostaram d’O segundo sexo, em 1949 - e chegaram a dizer que a Gallimard só continuava a publicar Simone de Beauvoir por pena.
O primeiro romance que ela publicou foi A Convidada (1943), porém o mais conhecido é, provavelmente, Os Mandarins (1954), uma convocação à arte engajada que ganhou o prêmio Goncourt, a mais importante distinção literária da França. Ao todo Simone de Beauvoir escreveu sete romances, uma peça de teatro, um depoimento, cinco livros memorialísticos e dez ensaios. Dentre os ensaios está a sua obra mais conhecida e influente: Le Deuxième Sexe (O Segundo Sexo), de 1949, um estudo apaixonado pela abolição do que ela chamou o mito do "eterno feminino". Esta obra tornou-se um clássico da literatura feminista e marcou o início da preocupação com a condição das mulheres na obra de Beauvoir.
O romance A mulher desiludida surge, então, num contexto de maturidade filosófico, política e artística da autora, no entanto, num período bastante conturbado, pois recentemente a crítica havia atacado duramente dois livros de Beauvoir: Uma morte muito suave (Une mort très douce), de 1964, sobre a morte da mãe dela, e As belas imagens (Les belles images), de 1966, sobre a sociedade de massa e a solidão dos indivíduos.
Um outro contexto bastante interessante do surgimento do livro é a ascensão do movimento feminista à época. Muitos estudiosos consideram que o grande vencedor do Maio de 68 francês foi o movimento de mulheres, por ter posto em discussão o privado, desconstruindo depois a própria oposição público x privado e dizendo ao mundo que as questões ditas “individuais” são também políticas, por isso a condição das mulheres, antes encarada como situação pertencente à esfera do privado, diz respeito sim à esfera do público, do político. E é neste momento que Simone de Beauvoir está começando a participar mais ativamente do movimento feminista, principalmente na luta pelo aborto livre.
O primeiro romance de A mulher desiludida chama-se A idade da discrição (L’âge de discrétion). Uma intelectual de sessenta anos, casada com um cientista de muito sucesso e também sexagenário, nos conta, num relato cheio de angústias e descobertas, como está sendo se tornar idosa. A personagem está incomodada porque o marido, André, não aceita a velhice, enquanto ela encara essa fase da vida com naturalidade. Essa discordância a atormenta, pois ela é uma adepta do mito da “comunicação total” entre um casal – “acreditava-nos transparentes um para o outro, unidos, soldados como irmãos siameses”, diz.
Ora, Simone de Beauvoir era, como já disse, feminista e existencialista, e a sua literatura não nega isto. Para o pensamento existencialista, o outro é sempre um outro, mesmo que se tenha relações de fraternidade – ler a respeito disto o belíssimo romance de Simone intitulado O sangue dos outros, de 1945. Daí a crítica feita em A idade da discrição à crença de que se pode conhecer o outro tão intimamente a ponto de uma quase “fusão”. O principal no romance é a relação da mulher com o marido, embora o título sugira que seja a velhice a temática maior. Ao descobrir que não sabe tudo sobre André, a personagem sente-se aturdida e passa a se perceber velha, num sentido negativo. Paralelo a isto há uma profunda desilusão com o filho e com um livro que acabara de publicar.
Embora a exposição das idéias seja brilhante e inteligentíssima, a narrativa deste romance é, às vezes, demasiado objetiva, o que deixa um ranço de “pensata”: como se a autora tivesse criado suas personagens apenas para que ilustrassem idéias pré-concebidas. No entanto, há momentos em que sentimos o prazer de uma argumentação sólida, de um autoconhecimento invejável... A personagem se mostra lúcida, intensa e segura de si, apesar da crise. Isso é refletido na narrativa, que se torna fluida e visceral.
A história aborda ainda, de forma superficial, a esquerda francesa e a questão de classe. Segundo Simone de Beauvoir, dos três romances publicados em A mulher desiludida, este foi o que ela menos gostou, pois tratou do tema da velhice de forma “superficial”. Mais tarde a autora viria a “acertar as contas” com a problemática, pois publicou em 1970 um longo ensaio chamado A velhice.
O segundo texto, intitulado Monólogo, é violento e desesperado. Deve ser lido de um fôlego só. A personagem chama-se Muriel, mulher que foi bastante reprimida na infância e tem o sonho burguês de assepsia moral e de uma família de “propaganda-de-margarina”. Muriel está sozinha, em seu apartamento, na noite de Ano Novo. Ela está furiosa com todos, que pensa quererem espezinhá-la e rir-se dela. Acha que para superar a humilhação, deve conseguir seu marido de volta para assim reestabelecer a sua família. O que motivou a desagregação da família foi um episódio aterrador: Sylvie, a filha, não suportando a conduta opressora e punitiva da mãe, que se projetava nela, havia suicidado-se há cinco anos. Depois disto, Muriel é afastada do filho, Francis, garoto de 11 anos de idade.
Simone de Beauvoir foi genial ao escolher como recurso literário o monólogo: é ininterrupto, traz a idéia de loucura, de esquizofrenia. Já a supressão da vírgula nos força a freqüentemente recomeçar a leitura da frase, o que nos faz sentir frente a uma pessoa desequilibrada, com quem nos custa estabelecer diálogo e entender o sentido de suas idéias. A angústia expressa nessas páginas é intensa, mas tão tanto quanto a compaixão, sentimento desprezado pelos existencialistas.
A mulher desiludida, romance que dá nome ao livro, é o mais longo e está escrito no formato diário. Quem conta a história aqui é Monique, de quarenta anos, casada há 20 e com duas filhas, ambas adultas e já morando fora de casa. Monique deixou de trabalhar há 10 anos para se dedicar mais ao lar – marido e filhas. Porém nos últimos tempos Maurice, o marido, está diferente. A mulher tenta não pensar no assunto, apoiando seu amor nas lembranças do casamento feliz de outras épocas. Até que descobre a verdade inapelável: ele tem outra. E é a partir dessa descoberta que Simone de Beauvoir vai nos mostrar, com maestria, o que uma mulher pode fazer a ela mesma em nome do papel que ocupa nesta sociedade burguesa.
Monique passa todo o tempo a pensar em variáveis para desmontar o enigma do relacionamento de seu marido com outra mulher ou gasta os dias a maquinar planos mirabolantes para desmoralizar a sua “rival”, constranger o marido ou tê-lo de volta. Ela parece tão pequena, tão fútil! Tão escravizada! É possivelmente mais angustiante do que o Monólogo, pois enquanto lá não vemos saída para Muriel, em A mulher desiludida ainda podemos ter esperanças de uma “volta por cima”, que Simone habilmente não nos deixa acompanhar, apenas insinua. Beauvoir disse que este romance deve ser lido como uma história policial, no sentido de que o leitor deve prestar atenção às pistas deixadas no diário de Monique com o intuito de conhecê-la de verdade, longe da representação que ela cria dela mesma e de sua vida.
Simone de Beauvoir revelou que muitas mulheres a escreveram sobre este romance. Elas se identificavam com Monique, tinham histórias parecidas e, portanto, tomavam o partido da personagem contra o marido e a amante. A autora, em seu livro autobiográfico Balanço Final, declarou que ficou aborrecida com essas interpretações, pois pretendia justamente o contrário: uma crítica à mulher dependente.
A mulher desiludida foi o romance mais atacado do livro. Alguns críticos disseram que o romance era “água-com-açúcar”, o que demonstra estreiteza ou má vontade para com a autora e a temática feminina, pois fica claro, pra quem conhece o mínimo sobre a feminista existencialista que é Beauvoir, que o romance é como uma “sacudida” nas mulheres. Simone relatou, também em Balanço Final, que algumas feministas ficaram indignadas porque ela não criou uma heroína, uma mulher autônoma e bem-resolvida que saísse da crise.
E por que reunir os três romances em um livro? Há uma unidade neles: a temática feminina, óbvio, mas, além disso, a abordagem, a partir do fracasso, da angústia e da solidão, de histórias facilmente encontradas no universo feminino. Pode-se pensar que o fracasso, n’A mulher desiludida, é o fracasso como mãe, intelectual e esposa, e que a angústia e a solidão advêm daí.
Não. Simone de Beauvoir despreza os “fracassos” das personagens. Isso para desconstruí-los: o que é ser uma intelectual e escrever best-sellers? O que é ser mãe e ser uma boa mãe? Qual o papel que a sociedade imputa a uma mulher casada? O que significa ter um casamento feliz? Ela vai às estruturas da nossa sociedade e faz uma crítica atroz ao modelo social burguês e às mulheres que ainda não se tornaram seres humanos íntegros, independentes, livres, autônomos.
Vindo este livro de Simone de Beauvoir, “a escandalosa”, que optou por não casar, morar só, não ter filhos e manter com Sartre, seu companheiro, uma relação baseada na individualidade do outro, não podemos ignorar a discussão acerca da família, do modelo de família nuclear. A crítica à família está no Monólogo, quando Muriel, na tentativa de ser uma “boa” mãe – ou seja, ter sucesso ao incutir na filha a moral e os valores patriarcais – acaba por levar Sylvie ao suicídio. E por que uma mulher tem de ser uma boa mãe? Aliás, por que tem de ser mãe? O papel social atribuído às mulheres é discutido por Simone de Beauvoir n’O segundo sexo, ao cunhar a famosa frase “não se nasce mulher, torna-se”. Ou seja, os papéis são atribuídos às pessoas através de convenções sociais, e não biologicamente, portanto são culturais e não naturais, podendo ser subvertidos. A ideologia se encarrega de nos fazer pensar que os valores são universais e os papéis dos sexos são naturais. Daí a surpresa de muitos ao encontrar uma mulher que não quer ter filhos!
A autora aborda também o apego que as mulheres têm às instituições, principalmente ao casamento e à família, claro. A personagem de A idade da discrição acreditava, no início do romance, que tinha por trás dela um bonito passado, sólido, e por causa disso estava realizada e poderia suportar a velhice. Muriel evoca constantemente, do âmago de sua loucura, a “impecável” mãe que fora. E Monique usa o amor morto como pretexto para continuar a busca pela reconstituição de seu casamento.
As três mulheres chegaram ao fundo do poço e foram obrigadas a encarar suas fraquezas. A primeira, ao que tudo indica, terá ainda momentos de tensão com a velhice, mas saberá conviver com a idade. A segunda parece estar agonizando - a própria Simone, na sua autobiografia, diz que para Muriel só resta a loucura ou o suicídio. E a terceira, fomos obrigados a abandoná-la num momento em que fica indicada um tentativa de resistência.
Vista por esse ângulo – da exposição das fraquezas - Simone de Beauvoir é mais nitidamente feminista e existencialista. É necessário que as mulheres passem por uma situação extrema para que tenham a “revelação” – e isto em Beauvoir lembra a epifania presente em Clarice Lispector – da sua real condição - vejam que o que há é só o “deserto do passado”, como uma das personagens diz, citando Chateaubriand - e assim sejam obrigadas a escolher, “existencialísticamente” falando, com toda a angústia que a necessidade de escolhas pode trazer, o que vão fazer de suas vidas.
Pois ousemos a escolha, com todos os riscos que ela traz! Este livro completou quarenta anos e como é doloroso perceber a extrema atualidade de sua temática! As mulheres, desiludidas, devem buscar uma nova relação com o mundo e com os outros, livres da dependência, do vitimismo, almejando ser indivíduos completos. Neste sentido, Beauvoir deixa a sua contribuição, como catalisadora de um processo.